domingo, 6 de julho de 2014

Temperos Listrados de Tigre !

Entre algumas diferenças gastronômicas que nos diferenciam de outros povos, sem dúvida, é o centro em que a carne (de gado, de porco, de ovelha, de qualquer coisa, etc.) toma nos pratos que servimos e comemos aqui no Rio Grande do Sul. Isto não nos torna melhor ou pior gastronomicamente, é apenas uma característica, como existe com qualquer povo. Com o avanço das possibilidades de restaurantes, é normal que variações sobre o mesmo tema aconteçam.



Hoje temos opções de churrasco para todos os gostos e para quase todos os bolsos. Sim, carne ainda é algo caro, embora bem mais barato do que para outros povos. Primeiro, há os churrascos-rodízios-tradicionais, aqueles em que se come quase todas as partes do boi, a começar pelo clássico cupim até chegar na picanha, onde garçons pouco suados e apressados tentam empurrar pedaços largos e grandes de carne, e com isso desovar o estoque. E sovar o cliente.


Algumas variações foram agressivas. Mas há quem goste, vide os locais quase sempre lotados. Surgiram, então, os churrascos-rodízios-tem-de-tudo, onde você come, realmente, de tudo, e de repente, até um pedaço de carne, se sobrar espaço. São as churrascarias que servem sushis, sashimis, grande ilhas de frutos do mar, feijão, 18 tipos de massas, polenta, pastel, tábua de frios e, acreditem, mais de 20 tipos de cortes de carne. Haja estômago para tudo isso e equilíbrio mental para aguentar.

Em menor número, alguns outros estabelecimentos tem até bandas gaudérias tocando ao vivo. E aqui, eu faço uma confissão: poucas coisas na vida são melhores do que comer calmamente um bom churrasco, tomando um bom vinho ou cerveja bem gelada, com família e amigos, escutando uma banda tocando música gaudéria ao vivo. Quem ainda não fez isso, está perdendo um passeio social incrível, que é quase um leve experiência etnográfica de curta duração, ou seja, 3 horas.

Alguns outros gaúchos amam os portenhos. Tem gente que ama a Argentina, francamente. Cada um com seus gostos. E com isso a parrilla ganhou força no estado. Ou pelo menos um churrasco sem espeto; embora eu ache que este amor veio do Uruguay... E este amor parece ter originado o surgimento de cortes premium, em churrascarias que optaram por elevar a qualidade dos cortes e, por consequência, do preço. Ou o contrário, dependendo do ponto de vista em que se está posicionado. Com eles vieram o entrecot, ojo de bife, premium ribs e outras nomenclaturas, que lá em Guaporé chamamos de paleta desossada e chuleta atravessada sem osso, mesmo.

Na raiz de tudo, no entanto, estão as churrascarias-roots. Aquelas que servem apenas meia dúzia de cortes, quase todos de perto da costela, com aquelas artimanhas espetaculares em que alcatra vira entrecot e maminha vira picanha. Sensacional. Garçons-açougueiros mais apressados ainda, aglomerando-se na mesa para servir 3 espetos ao mesmo tempo, travestidos de camisas brancas com gordura e esbanjando uma simpatia sensacional, que varia de humor conforme a cara do cliente. E sempre tem algum cliente para pedir abacaxi e correr o risco de levar uma sapatada. Ou um pingo de sangue mesmo.

Nestes lugares, é onde ocorre o famoso espeto de caminhoneiro. Ou seja, é bom. Meu avô sempre me dizia na estrada, nas viagens em que fizemos juntos: "iremos parar para comer onde estiver cheio de caminhão". Era sábio, o meu avô. São lugares onde o garçom não te deixa beber sem comer nada: traz de forma espontânea corações de galinha mal passados, para aperitivo. São lugares onde não tem Original nem Baden Baden. É Bavaria, Brahma (ou Bramis) e Antarctica. São lugares onde não tem classe social. Não tem cargo. Não tem poder. São lugares que servem morcela e pastel de bacon no Buffet. São lugares onde se come sem precisar mostrar nada para ninguém. São lugares para sentir o que, de fato, pode ser mais parecido com que é o Brasil. São lugares onde você encontra pessoas de chapéu de cowboy. E aquelas famosas placas que, se sobrar comida no prato, tem que pagar dobrado. E outras do tipo que devemos evitar o desperdício (ou disperdício - sem ofender o português). Consciência social em lugares menos prováveis - ou não.








Cortem a cena dos últimos 2 parágrafos deste texto. Este foi o cenário do encontro de junho, da nossa confraria. No dia 27.06.2014. Local: Churrascaria Tigrão, ao lado de um posto de gasolina e de um motel. Chuva, muita chuva que fazia a umidade escorrer por qualquer canto. A pérola do mês veio de Portugal: Blind Zero. Nosso Don definiu muito bem: “Olhos fechados, escutamos The Killers. Olhos abertos, escutamos Blind Zero”. Foi nosso primeiro encontro em Sapucaia do Sul. Nestes anos de TRock´s, já cobrimos quase toda a Região Metropolitana. Falta apenas Alvorada, Gravataí e Novo Hamburgo.


A tour III começou e embalou.

Bessos.

By Tom

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